Eu tive um sonho engraçado.

Normalmente eu não me lembro dos meus sonhos. Pra mim o mundo dos sonhos é um lugar inalcançável. Eu não sei o porquê disso até hoje, mas deve ter algo a ver com o meu sono agitado ou com a pouquíssima quantidade de horas de sono que eu tiro diariamente. Não entendo quem consegue dormir bem e ainda sonhar com menos de doze horas de sono.

Pois bem.

Estava eu no Baixo Gávea – coisa altamente improvável hoje em dia – e zanzava entre as cadeiras de um famoso e clássico bar de péssima qualidade. O mesmo que sempre freqüentava quando tinha os meus vinte e poucos anos e pouquíssima noção de qualidade de atendimento e de chope que me era servido. Passava eu com uma companhia a qual o sonho não me identificou – provavelmente um dos meus inúmeros conhecidos que parecem morar naquela praça – e estava me dirigindo à saída quando encontrei uma criatura bem conhecida.

Minha filha – numa versão adolescente – estava com um grupo de rapazes e tomando um chopinho moleque, aquela cerveja de várzea, a cachacinha-arte que todos nós estamos acostumados a praticar desde o início da idade adulta. E estava ela, com o seus amigos e amigas naquela corte velada que só quem teve dezesseis anos consegue entender.

E, apesar da legião adolescente de flertes, peguetes, paixonites e afins, me aproximei. Não me lembro de certo dos diálogos travados nessa mesa onírica, mas rolou algo como eu denunciar o bar por vender álcool a menores – hipocritamente me “esquecendo” que eu fizera o mesmo no passado, à mesma idade – ou de dar uma lição de moral aos meninos. Moral essa pífia e sem o menor sentido, apenas a titulo de empáfia e um arrotar de pai que se vê aviltado ao se deparar com o prosaico fato de sua filha adentrar à vida adulta. Os diálogos eram tão ruins que não ficaram na minha memória.

O que marcou mesmo, do sonho, foi um papo olho no olho com a baixinha. No sonho ela tinha a mesma face e o mesmo olhar terno que tem hoje, com uma fagulha de peraltice que um dia deverá se tornar em esperteza e malandragem. Ela me olhou e pergunto o que deveria fazer, já que não podia beber na rua, com os amigos e amigas.

Eu comecei a discursar sobre a violência da cidade grande; que o Rio de Janeura já não era mais o mesmo que eu conhecera na minha juventude (ainda bem!); que eu confiava nela, mas que vira e mexe tem menina sendo estuprada por aí; que é melhor beber em casa (o padrasto e a mãe dela bebem a cervejinha e o vinho em casa mesmo); para ela tomar cuidado e ter sempre o número da gente em mãos; ter sempre o número do hospital também; e o da policia e o do advogado que casou com minha prima e resolve sempre esses perrengues do dia-a-dia para a família; e da Liga da Justiça e dos Vingadores. (Era um sonho, gente. Um sonho. Permitam-me o delírio.)

Ela continuou calada, mas parecia-me perguntar: “para quê você me cria, pai?”

E nessa hora, eu acordei.