pensamentos esparsos de uma mente desconexa
19 jul 2008
Eu tive um sonho engraçado.
Normalmente eu não me lembro dos meus sonhos. Pra mim o mundo dos sonhos é um lugar inalcançável. Eu não sei o porquê disso até hoje, mas deve ter algo a ver com o meu sono agitado ou com a pouquíssima quantidade de horas de sono que eu tiro diariamente. Não entendo quem consegue dormir bem e ainda sonhar com menos de doze horas de sono.
Pois bem.
Estava eu no Baixo Gávea – coisa altamente improvável hoje em dia – e zanzava entre as cadeiras de um famoso e clássico bar de péssima qualidade. O mesmo que sempre freqüentava quando tinha os meus vinte e poucos anos e pouquíssima noção de qualidade de atendimento e de chope que me era servido. Passava eu com uma companhia a qual o sonho não me identificou – provavelmente um dos meus inúmeros conhecidos que parecem morar naquela praça – e estava me dirigindo à saída quando encontrei uma criatura bem conhecida.
Minha filha – numa versão adolescente – estava com um grupo de rapazes e tomando um chopinho moleque, aquela cerveja de várzea, a cachacinha-arte que todos nós estamos acostumados a praticar desde o início da idade adulta. E estava ela, com o seus amigos e amigas naquela corte velada que só quem teve dezesseis anos consegue entender.
E, apesar da legião adolescente de flertes, peguetes, paixonites e afins, me aproximei. Não me lembro de certo dos diálogos travados nessa mesa onírica, mas rolou algo como eu denunciar o bar por vender álcool a menores – hipocritamente me “esquecendo” que eu fizera o mesmo no passado, à mesma idade – ou de dar uma lição de moral aos meninos. Moral essa pífia e sem o menor sentido, apenas a titulo de empáfia e um arrotar de pai que se vê aviltado ao se deparar com o prosaico fato de sua filha adentrar à vida adulta. Os diálogos eram tão ruins que não ficaram na minha memória.
O que marcou mesmo, do sonho, foi um papo olho no olho com a baixinha. No sonho ela tinha a mesma face e o mesmo olhar terno que tem hoje, com uma fagulha de peraltice que um dia deverá se tornar em esperteza e malandragem. Ela me olhou e pergunto o que deveria fazer, já que não podia beber na rua, com os amigos e amigas.
Eu comecei a discursar sobre a violência da cidade grande; que o Rio de Janeura já não era mais o mesmo que eu conhecera na minha juventude (ainda bem!); que eu confiava nela, mas que vira e mexe tem menina sendo estuprada por aí; que é melhor beber em casa (o padrasto e a mãe dela bebem a cervejinha e o vinho em casa mesmo); para ela tomar cuidado e ter sempre o número da gente em mãos; ter sempre o número do hospital também; e o da policia e o do advogado que casou com minha prima e resolve sempre esses perrengues do dia-a-dia para a família; e da Liga da Justiça e dos Vingadores. (Era um sonho, gente. Um sonho. Permitam-me o delírio.)
Ela continuou calada, mas parecia-me perguntar: “para quê você me cria, pai?”
E nessa hora, eu acordei.
5 comentários for "Sobre a arte de criar para o mundo"
Sério que isso foi um sonho? Não precisa ser Freud pra interpretar…
Viva, sobre o texto lá em “casa”, foi realmente um sonho. E eu entendi sem precisar de análise.
Sou ciumento pacas com minha filha. É uma forma de compensar - ou justificar - a distância entre mim e ela.
Acontece que ela está virando uma mocinha. Dez anos e é da altura da mãe. Peitinhos e já tem as regras. É uma mulher funcional já.
Daqui a pouco ela vai ser mais uma dessas adolescentes que infestam - ou populam - os bares, boates e a noite carioca. Foi a minha vez vinte anos atrás, não tenho porque achar que será diferente com ela.
E assim é a vida!
obrigado pela visita!
…E instantaneamente pensei na minha rebenta. Oh, céus, guide me! =]
Boa sorte pra nós, quando o momento chegar. Ser pai/mãe de adolescente não é nada relaxante.
Bjs
Zander, espero que não tenha me entendido mal. Faltou um “rs” no final da frase. Sei bem como se sente, já passei por isso (se bem que acho pior para o pai que para a mãe). Dá uma mistura de nostalgia e orgulho. Beijo.
Beijos de Londres
Daniel
http://www.sembolso.blogspot.com
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