pensamentos esparsos de uma mente desconexa
30 ago 2008
Eles foram amantes há tempos.
Percebia-se pela forma que se tocaram e pelo olhar que traia a brasa – fantasma de uma chama – que insistia em habitar a memória dos dois. Há anos não se viam, mas o toque era o mínimo efeito necessário para desencadear a virada da história.
Mesmo sem perceber, diziam a todos que já haviam rolado desnudos por noites a fio e fizeram festa e dança nos quartos que testemunharam a santa loucura que se apossa dos corpos entesados. Que já haviam berrado, xingado e se agredido em êxtase por não entender completamente o que se passava com eles.
Quando o amor é tamanho, a mente se nega aos fatos e cria fantasias para poder suportar os calores e os resfriares da alma. E assim acontece porque, para ambos, é como se tudo o que fosse, deixasse de sê-lo apenas porque podem assim fazê-lo. São onipotentes, esses devassos apaixonados! Agem como se o universo ali dobrasse na singularidade de dois corpos em fúria de cópula incessante. E isso fosse o suficiente para a eternidade.
Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.
O resto é desculpa.
E há o gozo, que parece ser impossível de ser replicado quando socializado. O gozo é algo solitário, mesmo a dois. E a busca do gozo faz aumentar as barreiras, as profundezas e o isolamento. E a busca do gozo faz com que o universo perca toda a lógica. O que importa é apenas a busca e a busca. Sempre só. Sempre só. Sempre sozinha. Mesmo a dois.
E quando os amantes encontram-se em gozo pleno, descobrem-se isolados de tudo, até mesmo de si. As barreiras passam a falar, a gritar em acordes quebradiços uma angústia sem fim. E só o fim é que promete uma falsa paz. Como a próxima dose de heroína acalma e derruba, o fim corta o canal de dor.
Eles foram amantes há tempos e viveram a loucura do gozo sem fim. Temiam que essa fúria retomasse o curso de suas vidas e lhes colocasse antolhos e os transformasse em bestas que ululam entre lençóis e arranham a mobília, os azulejos, as paredes, os tetos e o óbvio chão. Receavam que tivessem de se distanciar dos amigos, da família e de tudo o mais que lhes dava alento quando os vícios se tornavam impossíveis de serem carregados.
Receavam, acima de tudo, arremessar a vida e a televisão pela janela. Defenestrar a vida como sempre fora ensinada nos romances de sete reais e na novela das oito. Borravam-se de se desconstruir ou de se expor sem pele – perdida no atrito horário dos corpos – e de ficarem assados de tanto querer se atracar.
Contra tudo, tocaram-se. Apesar de tudo, tocaram-se. Por causa de tudo, tocaram-se.
9 comentários for "Sobre a arte de suar e arranhar as paredes"
Muito tenso!
Passarei a acompanhar pelo feed !
Abraços!
caramba! quase Um copo de cólera, de Raduan Nassar, no reencontro..
e eu amei o “expor sem pele”, isso é o máximo do humano, mais do que ser livre.
e: são capazes de não falar enquanto se tocam, e não se tocam quando dialogam entre as almas…
“Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.”
Amei. “Nunca! Nunca! Nunca!” será incorporado às referências pessoais. Genial, Zander.
bom de ler… gosto muito, obrigada por publicar…
só uma pergunta… tem algum parentesco com alguém que se chame Margarida?
Abs.
Vou contra a maré, só para exercitar: que coisa de frutinha, Zander!
Mas é bom…
…
..
.
Mas é frutinha…
…
..
.
Mas o resto é culpa. Ou não…
red é peixe? carapau ou sardinha?
enganei-me! a pergunta é sobre ZANDER ser peixe e não RED. lol. aqui há o peixe vermelho sim senhor!, chamado o peixe- comunista. ahahah.
Fantástico.
Zander, teu texto faz referências a psiquê humana de forma lúdica e inebriante, como se você fosse um daqueles amantes - e talvez até mesmo o seja - e é isso que dá peculiaridade ao textoe ao mesmo tempo o torna tão cheio de personalidade.
Magnífico, e eu não tenhu palavras mais para elogiar. Embora não tenha lido o resto de tua obra, creio que seja este um ápice criativo, pois duvido - embora receoso - que tenha se superado em outra criação.
Gozado! Encontrei este blog enquanto buscava a busca de minhas necessidades RPGísticas e me deparo com satisfação intelectual. Irônico, não?
Agradeço-lhe por dar-me tão frutíferos minutos de leitura, minutos esses que me lembrarei por longa data.
Um forte abraço,
Malkavian =]
Correção:
“Encontrei este blog enquanto buscava a busca de minhas necessidades RPGísticas e me deparo com satisfação intelectual”
(…)Buscava a saciação de minhas necessidades RPGísticas, (…)
-.- todos cometemos errinhos ^^
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