Sobre a arte de suar e arranhar as paredes
Eles foram amantes há tempos.
Percebia-se pela forma que se tocaram e pelo olhar que traia a brasa – fantasma de uma chama – que insistia em habitar a memória dos dois. Há anos não se viam, mas o toque era o mínimo efeito necessário para desencadear a virada da história.
Mesmo sem perceber, diziam a todos que já haviam rolado desnudos por noites a fio e fizeram festa e dança nos quartos que testemunharam a santa loucura que se apossa dos corpos entesados. Que já haviam berrado, xingado e se agredido em êxtase por não entender completamente o que se passava com eles.
Quando o amor é tamanho, a mente se nega aos fatos e cria fantasias para poder suportar os calores e os resfriares da alma. E assim acontece porque, para ambos, é como se tudo o que fosse, deixasse de sê-lo apenas porque podem assim fazê-lo. São onipotentes, esses devassos apaixonados! Agem como se o universo ali dobrasse na singularidade de dois corpos em fúria de cópula incessante. E isso fosse o suficiente para a eternidade.
Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.
O resto é desculpa.
E há o gozo, que parece ser impossível de ser replicado quando socializado. O gozo é algo solitário, mesmo a dois. E a busca do gozo faz aumentar as barreiras, as profundezas e o isolamento. E a busca do gozo faz com que o universo perca toda a lógica. O que importa é apenas a busca e a busca. Sempre só. Sempre só. Sempre sozinha. Mesmo a dois.
E quando os amantes encontram-se em gozo pleno, descobrem-se isolados de tudo, até mesmo de si. As barreiras passam a falar, a gritar em acordes quebradiços uma angústia sem fim. E só o fim é que promete uma falsa paz. Como a próxima dose de heroína acalma e derruba, o fim corta o canal de dor.
Eles foram amantes há tempos e viveram a loucura do gozo sem fim. Temiam que essa fúria retomasse o curso de suas vidas e lhes colocasse antolhos e os transformasse em bestas que ululam entre lençóis e arranham a mobília, os azulejos, as paredes, os tetos e o óbvio chão. Receavam que tivessem de se distanciar dos amigos, da família e de tudo o mais que lhes dava alento quando os vícios se tornavam impossíveis de serem carregados.
Receavam, acima de tudo, arremessar a vida e a televisão pela janela. Defenestrar a vida como sempre fora ensinada nos romances de sete reais e na novela das oito. Borravam-se de se desconstruir ou de se expor sem pele – perdida no atrito horário dos corpos – e de ficarem assados de tanto querer se atracar.
Contra tudo, tocaram-se. Apesar de tudo, tocaram-se. Por causa de tudo, tocaram-se.
Tags: noites de fúria, sexo selvagem


August 31st, 2008 at 14:52
Muito tenso!
Passarei a acompanhar pelo feed !
Abraços!
September 1st, 2008 at 08:59
caramba! quase Um copo de cólera, de Raduan Nassar, no reencontro..
e eu amei o “expor sem pele”, isso é o máximo do humano, mais do que ser livre.
e: são capazes de não falar enquanto se tocam, e não se tocam quando dialogam entre as almas…
September 2nd, 2008 at 14:58
“Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.”
Amei. “Nunca! Nunca! Nunca!” será incorporado às referências pessoais. Genial, Zander.
September 2nd, 2008 at 23:08
bom de ler… gosto muito, obrigada por publicar…
só uma pergunta… tem algum parentesco com alguém que se chame Margarida?
Abs.
September 4th, 2008 at 16:17
Vou contra a maré, só para exercitar: que coisa de frutinha, Zander!
Mas é bom…
…
..
.
Mas é frutinha…
…
..
.
Mas o resto é culpa. Ou não…
September 6th, 2008 at 04:31
red é peixe? carapau ou sardinha?
September 7th, 2008 at 18:27
enganei-me! a pergunta é sobre ZANDER ser peixe e não RED. lol. aqui há o peixe vermelho sim senhor!, chamado o peixe- comunista. ahahah.
September 15th, 2008 at 10:23
Fantástico.
Zander, teu texto faz referências a psiquê humana de forma lúdica e inebriante, como se você fosse um daqueles amantes – e talvez até mesmo o seja – e é isso que dá peculiaridade ao textoe ao mesmo tempo o torna tão cheio de personalidade.
Magnífico, e eu não tenhu palavras mais para elogiar. Embora não tenha lido o resto de tua obra, creio que seja este um ápice criativo, pois duvido – embora receoso – que tenha se superado em outra criação.
Gozado! Encontrei este blog enquanto buscava a busca de minhas necessidades RPGísticas e me deparo com satisfação intelectual. Irônico, não?
Agradeço-lhe por dar-me tão frutíferos minutos de leitura, minutos esses que me lembrarei por longa data.
Um forte abraço,
Malkavian =]
September 15th, 2008 at 10:26
Correção:
“Encontrei este blog enquanto buscava a busca de minhas necessidades RPGísticas e me deparo com satisfação intelectual”
(…)Buscava a saciação de minhas necessidades RPGísticas, (…)
-.- todos cometemos errinhos ^^