Sóis que nascem e sóis que se poem

Charile Brown

Charile Brown

E o menino me contou que fazia tempos que não se apaixonava e que o motor de sua vida era a paixão. Não se encantava mais com poer do sol ou o seu renascer, doze horas depois. O verão desanimava-o e o inverno trazia as lembranças de uma infância feliz.

E era essa a chave que cerrava o mistério de seu cenho torto e anguloso: fora uma criança tão bela, tão feliz mesmo nos anos de chumbo, mesmo no calor do méier dos anos setenta, mesmo na pouca grana e nos brinquedos comprados com muito suor pelos pais e avós.

Mesmo na miopia que impedia que soltasse pipas, ele ficava imaginando-as voando e os outros meninos nos telhados correndo por uma aventura de papel, linha e varetas de pau, duelos em pleno céu azul sobre zinco e telhas quentes. Depois o salto para o asfalto e a corrida com chinelos destruídos por conta do chão que turvava o ar. Ele olhava e imaginava e invejava e rezava pelo outono.

E o menino vivia um idílio de céus cianos e amendoeiras e marimbas e piões e bolas de gude. Tinha desenho animado em tevê branco e preto, tinha globinho supercolorido e leite com café e pão molhado. Tinha sorvete em lata redonda e picolé de limão quando ia à praia.

Um certo dia ele entrou na escola e viu a menina de olhos azuis. Naquele momento algo morreu dentro dele e explodiu em sonhos de gente grande. Queria ser pai, marido e cientista. Queria ser inventor, rico e andar de mãos dados com a moça loira de olhos azuis. Apaixonou-se.

Os sóis que nasciam ou se punham não mais faziam sentido, as pipas ficaram turvas e desfocadas, as bolas de gude, bobas e as crianças da rua, enjoadas. A aula ficou mais interessante e a horas se esticavam entre os olhares de soslaio da menina. Que obviamente nunca lhe deu bola.

Mas não importava. O frisson de sentar a uma carteira era o que movia o seu querer dali para frente. Viciou-se em paixão.

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6 Responses to “Sóis que nascem e sóis que se poem”

  1. Renata Says:

    Lindooooo

  2. Hérica Rocha Says:

    Quando se tem paixão o resto é detalhe, mero detalhe.
    Texto lindo, me fez lembrar a frase de uma canção do Nando Reis: ” e agora que eu amo você, o mundo não precisa nunca mais girar”.
    Um abraço!

  3. Cláudia Says:

    Adorei o texto!!! Uma linda visão da fase de transição entre o doce e sonhador menino e o rapaz que descobre a paixão.

  4. Rose Says:

    Lindo texto!

    Beijos

  5. Iúri Araújo Says:

    parabéns pelos belos textos e perspicácia. é difícil encontrar boa leitura, clara, coerente e revestida de sensibilidade. já sigo seu blog. ;) o texto acima fala tanto, resume-se a um único fim: a paixão. este menino é você? adorei a analogia com charlie brown. a cara do texto. abçs!

  6. zander catta preta Says:

    Renata, Cláudia e Rose, muito obrigado pelos elogios. Mesmo. Seu comentário é o meu motor para continuar escrevendo aqui.

    Hérica, verdade. A paixão (na verade, o “querer”) é o motor primeiro para tudo na vida. É no que acredito.

    Iúri, sim, o menino sou eu! e a imagem apareceu para mim por acaso, num feed de um blog de fotos que adoro, sou fã.

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