Acordou cedo, mas perdeu a carona assim mesmo. Antes tivesse dormido em casa. Teria tempo de tomar o banho quente, fazer a barba e trocar uma roupa passada. Correu e pegou o 2016 Centro-Mandala e tentou não congelar enquanto se perguntava por que raios esses ônibus com ar condicionado tentavam virar geladeiras e freezers no inverno gélido do Rio de Janeiro. Tá certo que, se fizesse sol, poderia bater uns trinta graus fácil, mas não era o caso. Enquanto azulava os lábios, viu que marcava dezenove graus no relógio-termômetro da General Osório.
Encostou, abriu o livro do Baudrillard e tentou ler um parágrafo.
“Cara cacete.” Fechou e abriu o gibi do Super-homem.
À frente o casal comentava a vida. “Ele tá na fase dois, né?” “Tá sim. Vai prá guerra e não perdoa nada que use saia.” “Não entendo os homens.” “É que, quando termina um relacionamento, os caras têm de aproveitar o momentum de moleza que as mulheres davam para ele.” “Hein?” “Pois é. Você nunca viu que, quando um cara começa a namorar, começam a aparecer várias mulheres a fim? Principalmente quando o cara é meia-bomba, nem feio nem bonito, nem legal nem chato, quando arruma alguma foda fixa, as outras ‘concorrentes’ ficam ouriçadas. Acham que perderam um ‘bom partido’ ou algo que o valha.” “Mas o que isso tem a ver com o ‘momentum’?” “Pois é. Quando ele termina o namoro/casamento/relacionamento/whatever as mulheres ainda consideram que é um ‘bom partido’ e ainda mantém aquele mole básico. Se o cara não aproveita ele vira mais um solteiro desinteressante. É claro que, se o cara for um canalha, ele não deixa o nível de interesse do sexo oposto cair nunca. Afinal de contas, o mulherio se amarra num filho da puta, né?” “Ah! Não acho que seja assim não. Deve ser outra coisa.” “Então conta.” “Acho que o cara tem de se reafirmar como macho mesmo. Os homens também sofrem o mesmo molde social que as mulheres e, em sua maioria, também querem ter uma família, sustentar uma mulher e tal, mesmo comendo geral na rua. E quando a proto-família dele acaba, ele fica meio sem rumo, sem norte para tocar a vida e tem de sair pegando geral para provar que ainda está no mercado, que aquilo não foi nada, que fazia parte da vida e tal.” “Mas faz parte da vida o ciclo de nascimento, evolução e fim. É normal em todo relacionamento.” “É, eu sei disso. O problema são aqueles que não sabem ‘morrer’ um relacionamento e fazê-lo renascer com a mesma pessoa.” “E quem sabe fazer isso? Ouço muito a galera falar isso, mas conheço poucos que o fazem. Eles ficam juntos por comodismo mesmo. Preguiça pura. Ou medo. Sei lá.” “É o nosso ponto. Levantaí.”
Acabou de ler a sessão de cartas e mudou para o banco da frente. Ainda tava quentinho. Olhou a paisagem cacete da Barra da Tijuca e se lembrou do Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. O cara se pré-dispunha a viver tudo de novo com a mesma mulher repetidamente. Pensou rapidamente em dois ou três amigos que faziam a mesma coisa. Só que com mulheres diferentes. Sabiam que iam ficar apaixonados por dois, três meses, iam mudar para a casa delas ou fazê-las mudar para a sua casa, iam comprar um cachorro ou um peixe e iam terminar antes de fazer três anos de relacionamento. E faziam a mesma merda de novo. E de novo. Again.
“Filme foda.”
Levantou, saltou no Barra Shopping, lembrou que tinha de comprar um cabo de rede novo para o modem que não funcionava e xingou a conta do banco.
“Preciso arrumar um emprego.”
Rodou por horas o shopping e só tinha achado interessante a tatoo no rego de uma morena linda. Aliás, foda-se a tatoo. Que morena! Tava acompanhada por um pit-boy típico que usava uma bermuda da Bad Boy roxa com listras amarelas.
“Ha! Lembra o Coringa.”
“Amor, vamos tomar um sorvete?” “Pô. Queria uma açaí.” “Que merda de açaí o quê! Tu não gosta dessa merda! Tá todo saúde só porque fez duas aulas de jiu-jitsu! Que merda!” “Pô. Açaí é bom.” “Bom porra nenhuma. Tem gosto de merda aquilo.” “Pô. Tu já comeu merda pra saber?” “Ah! Não fode!” “Pô. Num precisa xingar né?” “Caraca! Não acredito que você entrou nessa merda de jiu-jitsu.” “Pô. Precisava fazer um esporte, né? Não dava para ficar parado. Tava enferrujando.” “Entrasse numa academia, sei lá. Essa merda de cheirar saco de homem é coisa de viado.” “Né não. Nem é. E é bom para controlar a agressividade.” “Que agressividade, caralho. Eu é que sou o homem do casal. Tu não faz mal nem a uma flor.” “Pô amor… num fala assim. Fico mal.” “O pior de tudo é você comprar essas roupas de pleisson que não têm nada a ver contigo.” “Pô. São legais as roupas. O pessoal da academia gosta.” “Gosta é? Olha só aquele ali. Tá pouco se fodendo para que os outros pensam. Tá usando uma camisa do Super-homem e calças vermelhas.” “Grená. A calça é grená. E a camisa é do Super do Kingdom Come.” “Como é que é?” “Nada não, amor. Nada não. Açaí é bom, mas eu divido um sorvete com você.” “Mmmm assim é que eu gosto. E nada de ver filme cacete, viu?” “Pô. Brilho Eterno é foda.” “Um saco.”
Rodou mais um pouco. Não comprou o cabo. Mas comprou uma edição do Maus do Art Spielgman e riu quando viu o pit boy folheando uma edição velha do Olhos do Gato, do Moebius na livraria do New York City Center.
Que bunda tinha a morena.
“Encostou, abriu o livro do Baudrillard e tentou ler um parágrafo.
“Cara cacete.” Fechou e abriu o gibi do Super-homem.”
Era eu ouvindo a conversa no ônibus. Eu pegava esse ônibus pra ir pro trabalho até duas semanas atrás. Era eu sim.
(agora que a câmera chegou, vê se atualiza o fotolog…)