Um amigo, ao reescutar a trilha sonora do Sitio do Picapau Amarelo (a da decada de setenta, nao a de hoje) me chamou a atencao de como eram politizadas algumas das letras. Uma delas, em especial, a do tema do Arraial dos Tucanos dizia assim: “Até quando o homem que da terra vive/e que da terra tira o pão diário/vai ter sua paz?/paz, aparente paz./Paz, aparentemente paz”. Eu sei que os conflitos no campo não são (nem eram) nenhuma novidade, mas expressar isso numa música de um programa infantil e em plenos anos 70 era (e ainda o é) um tanto ousado, principalmente nos padrões bundalizantes dos dias de hoje.

E isso me faz pensar um pouco. Paremos. Respiremos. Pensemos.

Nos anos 70 tínhamos um regime ditatorial, cerceador da liberdade. Hoje, temos uma liberdade e uma defesa do direito de expressão exemplar no mundo inteiro. Somos um povo tolerante, sem tantos preconceitos explícitos. Então me respondam, por que não conseguimos produzir cultura decente com essa liberdade? Digo, porque é tão difícil fazer minha filha ouvir música decente aos sábados ou nas manhãs? porque eu não consigo ver artistas fazendo arte de fato nos sábados à tarde ou no domingo à noite? por que?

É que sucumbimos ao tirano definitivo, ao déspota etéreo, ao senhor de todo o suor, de todo o sangue, de todo o gozo, ao deus Mammon.