Wouldn’t It Be Nice

September 25th, 2005 § 0

- pós Beach Boys (obrigado, Lia! Que disco foda!)

Saltou na Barata Ribeiro como se descesse da ante-sala do Inferno, enfim liberto das agruras e torturas diárias a que se submetia. Vendia coisas que não importavam a pessoas desinteressantes e tentava convencer outras pessoas desinteressantes que as coisas que vendia eram importantes e seus clientes eram interessantes. Mas nada disso tem importância, exceto o simples fato que ele descia do 127 Praça Mauá – Copacabana como se deixasse o Inferno após pagar o todo o seu suplício.

Ao atravessar a rua, lembrou-se que não cumprira todos os ritos a que estava acostumado. “Bah! Voltar pra quê? Amanhã eu passo lá.” Namorava um som há dois anos. Obviamente não era sempre o mesmo aparelho, mas fazia planos em comprar um para si desde o falecimento do anterior. Ficava olhando pelas vitrines, comprava revistas, lia tudo que saía publicado e trocava o modelo de seus sonhos de acordo com as dívidas e os lançamentos.

“Que falta faz a Som Três…”

Ele cumpria esse ritual diário religiosamente. Saltava antes da Santa Clara, paquerava o som pela vitrine da Modern Soud, eventualmente comprava um CD ou uma camiseta por lá mesmo. Sabia que poderia pagar a metade do preço de qualquer um desses ítens se comprasse no centro, mas achava que assim pagaria um dízimo de fidelidade nesse templo do estilo e culto à boa música, como um clube de milhagem no céu dos aparelhos de som de alta sofisticação e sensibilidade.

Após a oração no templo, partia na sua perigrinação, no seu caminho de São Tiago pessoal. Da Barata Ribeiro, descia pela Santa Clara, parava na banca de jornais na esquina com a Nossa Senhora de Copacabana, procurava por uma publicação nova ou algum artigo em uma outra revista. Quando achava tentava ler ali mesmo, de pé. Se não conseguia, planejava economizar em um almoço ou dois para comprá-la no fim de semana. Ia andando até a Domingos Ferreira, passando por livrarias decadentes e bares idem. Comia um croquete ou um pastel quando tinha um troco e chegava em casa cansado e baldado, mas sempre esperançoso.

Mas nesse dia, não cumprira o seu pequeno ritual.

“Bah! Voltar pra quê? Amanhã eu passo lá.”

Ao atravessar a Santa Clara – para trocar de calçada – notou um despacho na encruzilhada. Nada demais até aí, sempre tem alguma macumba espalhada nas árvores de Copa. Notou o ebó. Dois pombos. “Epa hei!” disse para si mesmo “Axé, meu pai!” Uma trovoada vibrou o céu em cima da cabeça dele e o dia virou noite de relance. “Tá certo. Eu nunca trago um guarda-chuva mesmo. Tinha de chover hoje.” Correu para a marquise enquanto o ar tornava-se mais úmido que um urinol. No tempinho que esperava a chuva de verão passar, olhou com um pouco mais de interesse para o pote com farofa e duas pombas mortas. Lembrou-se que os pombos eram usados como sacrifício para os judeus, no dia do corte do prepúcio, se não estava enganado. E vacas para Odin no equinócio de inverno, ou seria no solstício de verão.

Sentiu-se cercado pelos deuses do passado e imaginou fadas mercuriais passando pelos fios de cobre dos postes, criaturas feéricas habitando os esgotos, espíritos construtores nos alicerces dos prédios e sílfides etéreas nos aparelhos de som.

Tomado por um medo ancestral, atravessou as ruas no meio da chuva, correndo entre os carros e voltou no seu templo de dedicação para prostar-se na vitrine e admirar as relíquias que queria trazer para sua casa. Caixas de som de mogno. “Salve os espíritos da madeira e os padroeiros das montadoras!” Auto-falantes alemães. “Salve os gnomos importadores e os deuses do magneto!” Amplificador francês…

“Oi. Você vem sempre aqui, não é? Por que não entra?” Virou-se e deparou-se com uma mulher alta, de cabelos escorridos, como se estivessem molhados. Dã! Estava chovendo, né? Linda ela, não? E que olhos profundos. Parecia que varavam sua alma. Ela fechou o guarda-chuva que usava, limpou os pés, digo, a sola dos tênis que usava no carpete de entrada da loja e dirigiu-se a ele.

“Vai entrar ou não? Vamos! Eu te pago um café! Tem um café aqui, né?” Beliscou-se. “Salve os demônios dos ferormônios.” Falou baixinho e ela não conseguiu conter um riso debochado. Sentaram-se e conversaram um bocado. Seis cafés e dois sanduíches depois ele descobriu que ela estava de mudança para São Paulo mas ainda iria ficar umas duas semanas no Rio. “Preciso do Sol e do Mar. Aquele me faz falta e este precisa de mim.” “As marés né?” “É.”

A chuva passara mas a conversa no café não. Ele contou do trabalho insosso e frustrante que tinha e dos sonhos e da vida inócua, medíocre. “Não é ruim ser medíocre.” “Como assim não é ruim?” “Não é ruim. É médio.” “Verdade.” “As pessoas é que querem ser reis o tempo inteiro. Não dá, né?” “Qual o seu signo?” “Câncer.” “Óbvio, né?” “Sim.” “Você é de Peixes, não é mesmo?” “Sim.” Ela passou a mão no rosto gelado dele. “Que besteira a minha! Aqui está um frio danado.” “O café esquenta.” “Mas não cura a gripe que você vai pegar.” “Não fico doente.” “Nem eu, mas isso não é desculpa.” “Vou pra casa agora que a chuva passou.” “Está bem. Você tem o meu telefone?” “Tenho sim.” “Me liga. Vou embora no fim da semana que vem.”

Ele assentiu e se levantou para ir para casa.

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