September 26, 2005 0

The Ghost of You

By in textos

- pós The Tears

“Quando eu digo que Manhattan é o meu , ou melhor, o da minha vida, as pessoas não entendem de prima. Mas quando explico que o trata de escolhas erradas, de atitudes exageradas sem sentido, de bad timing genético, aí que elas discordam mesmo de vez. O problema é que elas não vestem a minha pele. Não usam os meus óculos. E eu só aprendo quando olho para trás. Mas isso não evita que eu bata novamente com a cabeça no poste, quando ando pela rua da vida.”

Ouvia quieto o artista ler o seu ensaio em voz alta. Estava entre enebriado e intimidado por ficar entre tantas pessoas desconhecidas e se segurava na sua máquina fotográfica como se fosse uma muleta, um escudo. Enquanto fotografava não precisava se apresentar ou justificar porque estava olhando atento a um casal ou a um grupo menor no canto. Tinha a desculpa do olhar do fotógrafo, daquele que tenta ver além do que é mostrado, de quem procura o detalhe. No caso, ele apenas procurava um canto para se esconder e se deliciar com o espetáculo das emoções humanas.

Por vezes cumprimentava um ou outra que o reconhecia do seu site, de uma que tinha postado ou de um outro encontro de internautas. Era conhecido por ser esperto e comunicativo, mas hoje estava mais taciturno que nunca. Nunca tinha estado naquele sebo apertado e lotado de gente.

O artista terminara sua leitura e outro tomara o seu lugar. Era uma menina. Não. Uma mulher. Linda, linda. Alta, reluzente. Os olhos brilhavam com fúria e . Ele se ajoelhou para achar um ângulo melhor. Bateu seis default e descansou a câmera no colo. No fim do texto, mal continha os soluços. Não poderia ficar muito tempo no mesmo lugar que ela. Não com tanta gente em volta.

Saiu desastrado no fim do evento sem se despedir dos conhecidos. Só foi guardar a câmera ao chegar na Siqueira Campos, três quadras depois do burburinho da loja. Subiu a rua ainda tonto, embriagado com as próprias emoções. Passou em frente do Bar Pérola e resolveu se encostar lá mesmo. Não trabalhararia no seguinte então poderia encher a cara com tranqïlidade.

Lá pelo décimo chope, viu que um tipo diferente de gente estava entrando bar adentro. Demorou um pouco para se encontrar no meio da embriaguez mas reconheceu parte do público que estava no evento literário. “Fala fotógrafo!” disse um mais animado “Pronto. Perdi o meu nome.” Pensou.

E no meio deles, lá estava ela.

“Olá.” Tremeu dos pés à cabeça. Precisava mijar. Agora! “Já volto.” Foi se aliviar no banheiro e voltou para o seu ponto de partida mais enxuto. “Olá.” Disse apressado, enxugando as mãos na calça. “Eu gosto muito das suas fotos, sabia?” “Você disse isso da outra vez.” “Mas não canso de repetir.” “O que você quer de mim?” “Nada.” “É o que eu temia.” Disfarçou um sorriso amarelo. “Você é bobo. E eu gosto disso.” “Não sou bobo. Sou mordaz e cínico. Às vezes até mau. Mas você me desmonta, sabe disso.” “Sei. E eu gosto de te desmontar.” “Mas acho que não quero mais passar por isso. Já passei boa parte de minha vida orbitando em estrelas maiores que ti e me recuso a ficar apagado na tua presença.” Ela olhou com um quê de doçura e um outro tanto de . Chegou bem perto. Sussurrou no seu ouvido. “Querido. Isto é impossível. Meu brilho é maior que o seu.” Afastou-se com um sorriso aberto, como se fosse uma criança brincando de dar foras decorados numa outra.

Desequilibrou-se de dentro para fora. Pagou a conta e arrastou-se para o seu apartamento. Perdeu-se no caminho entre a Siqueira e a Bolívar. Perdeu-se em cada boteco fedido que encontrava no caminho.

Amanheceu em , sem entender direito o que acontecia. A cabeça doía como um parto e ele xingava cada gota de álcool ingerida.

Foi até a sala e deparou-se com ela saindo do banheiro enrolada numa toalha. “O que você está fazendo?” “Me enxugando.” Não entendeu. “Você não se lembra? Voltou ao Pérola. Declamou poesias. Cantou Chico e Belchior, me carregou no colo e me amou o resto da noite. Meia-bomba, a bem da verdade, mas dou um desconto. Nunca vi homem ficar bem com tanto álcool no sangue.” “Não lembro mesmo.” “Como assim? Você é o guardião da memória, não é? É aquele que é senhor do raciocínio e do pensamento.” “É o que eu dizia na , e só você dava bola para isso. Hoje me esqueço e quero esquecer o mundo.” “Você tem a alma do artista, a habilidade do…” “Pára! Você sabe o quão mal isso me faz. Não precisava te encontrar. Não hoje. Larguei tudo para trás quando nós nos encontramos. Deixei estabilidade e vida morna e previsível para cair nos braços de Luna. Enlouqueci porque tinha de provar o lado de Hecate, tinha de passar por tudo isso e magoei quem eu não queria e quem eu não podia. No fim das contas, o único que se fodeu fui eu mesmo. E, quando mais precisava do teu lastro, mais precisava do teu porto seguro, você me negou. Agora vem você me tentar novamente? Vai para a sua terra. Me deixa.”

“Seu desejo é uma ordem.” Disse ela vestindo a saia. Compôs-se com habilidade e destreza de quem estava acostumada a devorar gente como se fosse um McLixo qualquer.

“Não. Péra.” “Querido, você já é . Só queria ter um gosto da tua memória. E, sinceramente, preferia ter esquecido.” Saiu pela porta elegantemente.

Sentou-se no sofá e não encontrou o pranto necessário. A cabeça doía demais.


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