- pós Jeff Buckley
“Fala, amor. Você fica aí me olhando e não diz nada…” “É que você é tão bonita e os seus olhos verdes…” “Não enrola. Você tá querendo me dizer alguma coisa!”
Ele olha para as mãos, para a mesa, os malditos olhos verdes que fuzilam a vontade de falar qualquer coisa, a boca que emoldurou diversos sorrisos que fizeram o seu núcleo derreter até chegar o centro da terra.
“Tem um cara que mora na rua. Você conhece. Já deve ter visto. Às vezes ele está de terno, às vezes de moleton. Dorme ali mesmo, na esquina com a Nossa Senhora de Copacabana. Não pede. Não briga. Às vezes tá de barba e cabelos compridos. Outras, tá com tudo aparado. Como se tivesse passado a noite no Leão XXIII” “Leão XXII, amor” “Sei lá. Só sei que tem alguém que dá comida (acho que a lanchonetes da esquina) e banho eventuais no cara. Ele não perturba e não incomoda. Também não produz, tampouco consome. O que é esse cara?” “Nâo sei. O que é?” “Nâo sei, amor. Só sei que tem vários deles por aí. Nem falo das famílias que vivem de esmola, tráfico ou exploração das crianças. Falo do mendigos ‘legítimos’, se é que existe isso.” “Mas o que tem isso, amor?” “Escuta.” “Ok.” “No caminho daqui para o trabalho, passamos pelo túnel da estrada Lagoa-Barra, certo? Um dia vi lá dentro um cara com uma barba de Osama, enorme. Com uns sacos de lixo amarrados como calça, tanga, sei-lá-o-quê. Segurava um cabo de vassoura e estava na beirada do viaduto, agachado, esperando a presa, o megatério que ia dar mole e ser a janta da tribo dele, saca? Um verdadeiro homem das cavernas. Caverna essa que é o túnel Zuzu Angel.” “Mas o que isso tem a ver com tudo amor?”
Olhou para o rosto dela e não soube explicar o assombro que o acometeu quando viu aquela figura louca, altiva (apesar de agachada). Era como tivesse encontrado com um ente atávico, algo que o remetesse às reais origens da humanidade. No lixo, o homem encontrava a sua essência. Mas tudo isso ainda estava muito cru na sua cabeça, não era uma idéia formulada, só uma impressão que encobria algo muito mais sério.
“Eu queria ser aquele cara, amor.”
Ela olhou com uma cara de ‘outra maluquice dele’. “Amor, vai começar o filme daqui a pouco. Cadê os ingressos?” “Tão aqui.” “Então vamos? Não quero ficar atrás” “Quando você vai no oculista, amor?” “Marquei para semana que vem.” “Faz dois anos que você marca ‘para semana que vem’.”
Na bombonière, pediu uma coca e uma pipoca pequenas e um guaraná diet médio. Ela estranhou, mas não comentou. Estavam juntos tempo o suficiente para saber que ele tem disso, que não consegue falar as coisas de forma clara, aberta e honesta quando se trata de seus sentimentos.
Já com os desejos, os ódios e as vontades, era bem diferente. Dizia na cara: “Eu quero!” e brigava com o mundo se fosse necessário. Mas o sentir era um terreno inóspito. Não que não tivesse sentimentos. Ela o vira chorar umas três ou quatro vezes e ele não tinha medo de escoder uma alegria ou um dissabor. Era isso que o tornava encantador: tão transparente e tão fechado ao mesmo tempo.
Ela abraçou o seu amor bem forte no cinema. Deu-lhe um beijo no rosto assim que as luzes se apagaram e sentiu-lhe as lágrimas salgadas.
“Eu só queria ser livre.” Ela ouviu-lhe baixinho e conteve um soluço.
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