Faz uns três dias que estou enrolando para escrever uma crônica daquelas bem porreta. Das que, quando se começa a ler desencadeia uma sucessão de sorrisos amarelos e olhos marejados que são típicas daquelas publicadas nas últimas páginas de jornais de segunda de ex-capitais nacionais, assinadas por famosos ou quase isso e que são copiadas na internet, ora mantendo, ora trocando o autor por um mais famoso ou conveniente.
Mas nada acontecia.
Até porque eu não sou um cronista, muito menos desses talentos que, parece-me, são produzidos às dúzias por nossa maravilhosa indústria literária e tampouco me considero digno de atenção, quiçá cópia de alguém.
Mas vou eu, sonado, subindo a Xavier da Silveira, esperar o Ônibus da Empresa que me faz matinar em horários insalubres para notívagos, passo pela escola que me distrai em alguns segundos com os anúncios de Aulas de Kung Fu, Lambaeróbica, Teatro para Crianças e Futebol de Salão (meu Deus! eles não ensinam matemática?). Apressado, sonado, atrasado.
Um menino, oito anos de altura no máximo, me encara com olhos rasos, me ignorando. A mãe dava conselhos, tão autômata quanto apressada, e descarregava a carga na mochila do pequeno, à espera do sinal ou abertura dos portões (eram 7h45min, se não me engano).
“Oi.”
“…”
“Tô falando com você, não responde?”
“Oi! tudo bom?” – sorri amarelo para a mãe que deixara o pirralho na porta da escola – “Te conheço, né? Você foi colega da Cacá na creche dela?”
“Não, não.”
“…”
“Você não se lembra de mim mesmo, né?”
“Acho que lembro sim. Mas tá difícil lembrar. Tudo é difícil a essa hora da manhã.”
“Você se lembra sim, só cresceu e se esqueceu.”
Deu minha hora, concordei com ele, corri na chuva (é… chovia).
No ônibus lembrei-me da minha primeira série primária (a primeira do ensino fundamental de hoje), dos amiguinhos que esqueci o nome (tirando o japa Marsal e da loira Egle).
Cheguei em casa, depois do tédio de hora marcada para acabar, abri o livro de fotos da minha escola no Méier e, como eu esperava, não tinha ninguém que me lembrava o menino mas tava lá o Marsal e a Egle, crianças congeladas em papel, nitrato de prata e afins, em gris, enquanto eu guardar as lembranças.
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