July 4, 2005 3

Toes Across the Floor

By in textos, tribuna

publicada na Tribuna da Imprensa

Toda sexta ele pegava o ônibus e ia lá para a Ilha do Governador. Saía de Copacabana no 123, 125, 127 ou qualquer um outro que passasse no Castelo e pegava o 324 ou o 326 ou ainda um frescão, quando tinha sorte. Passava no supermercado, fazia compras, caçava uma ou duas pizzas congeladas (mussarela sempre, a cobertura complementar faria na ) e ia passar o fim de ouvindo Blur, Libertines, The Cure, Black Crowes e Blind Melon. Sonhava com o que só iria andar novamente de táxi.

Os únicos bens que amealhara na sua vida prévia, em família, eram as extensas coleções de livros, revistas, CDs e DVDs que foram alvo de discórdia, disputa e, de certa maneira, desapego.

“É a única herança que vou deixar pro meus . Vai chegar um dia que vou levá-los ao quarto, abrirei os armários e mostrarei: isso tudo é teu. Leva tudo que puderes, mas deixe tudo aqui para que tenhas quando retornares.”

Era xingado pelos amigos por isso, mas não ligava muito. De certa forma, vivia num ascetismo bem caro e trabalhava em função dos livros, CDs, revistas e DVDs. Gastava um tanto também com jornais e tal, mas isso conseguia mais barato acessando à internet.

De quando em vez fazia uma extravagância como um computador melhor, uma televisão de plasma, uma caixa de som de ressonância perfeita, um armário mais resistente para os livros que pareciam procriar. “Basta juntar dois livros, um manto seco, trigo num canto úmido do porão que eles se multiplicam. Eles e os kobolds.” Enquanto isso, o sofá resistia bravamente apesar das manchas não-identificadas que se espalhavam como estampas; a cama que desistira da vida e cometera suicídio seis meses antes, por conta de uma estripulia sexual mal-finalizada; o banheiro que via limpeza nos meses ímpares, não terminados com 31; a cozinha que era um excelente viveiro de animais quase identificáveis. “Acho que deixei um sanduíche aqui, na semana retrasada.”

Desta feita, às sextas-feiras ele corria do , ansioso por chegar em para organizar os que chegavam durante a semana e que metodicamente arrumava do lado do DVD player. Sentava o corpo que já doía e de quando em vez, cochilava. E desses nasciam histórias de saudades, e medos.

“Escreve essas histórias, cara. Você é super talentoso.” Dizia alguma das poucas que ainda se despiam das suas roupas e do seu tempo para ter prazer com o pouco prazer dele. “Você merece alguma coisa melhor, mais importante que isso.” Dizia uma das ex-esposas, às vezes era a mãe do menor, às vezes a do maior que nunca o visitava.

Ele resmungava e se fechava em copas, guardando para si o universo rico que germinava na sua mente.

Quando morreu, antes de fazer cinqüenta anos, seus filhos venderam os livros a peso, pegaram um ou dois discos que lhes interessavam e deram os restos das roupas, filmes e revistas para um burro sem rabo que passava por ali.

Foram parar num brechó junto com um caderninho velho, de capa dura, folhas amareladas, que fizeram chorar uma moça que se distraia enquanto o namorado experimentava um coturno de um para-quedista de dois metros de altura que morrera de diabetes num dos acampamentos de sobrevivência.

Pagou dois reais pelo caderno.


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3 Responses to “Toes Across the Floor”

  1. Lia says:

    Não tem muito o que comentar sobre o texto, muito bonito – mas esse lance da procriação dos livros = kobolds faz, acredite, algum sentido.
    Aqui em casa é assim, se jogo água eles se multiplicam, e se alimento depois da meianoite eles viram monstrinhos.

  2. Baxt says:

    Olha, esse texto foi foda. Se você tivesse conhecido o meu tio, ia entender. Por sorte nós nunca vamos vender os livros dele a quilo.

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