Morava há anos no mesmo furdúncio que descolara num golpe de sorte com uma ex esquisita. Ela se fora com algumas lembranças ruins e deixara o contrato do aluguel com ele. O contrato, alguns móveis, uma grande almofada e algumas revistas bolorentas. As revistas foram pro lixo, os móveis doados assim que ele os repôs com memórias de outras namoradas e a almofada teve sua capa trocada. Tudo de acordo com as normas de Feng Shui que ele mesmo inventara.
O cantinho era espaçoso, ajeitadinho e ele tratou de povoá-lo com livros e garrafas vazias de uísque, vodca, cerveja importada, tequila, absinto, o escambau. Se fosse líquido, ele bebia e guardava a garrafa para alguma utilização esdrúxula. Desde o garrafão cortado ao meio de Sangue du Bois que virou um porta-jornais às garrafas de tequila especiais que duram na geladeira refrigerando líquidos mais nobres. Mas isso era apenas um índice da coisa toda.
A decoração por si só era um amontoado de histórias. À semelhança das casas das avós e tias centenárias, ela amontoava não só a memorabilia, os mementos do morador, mas era um acúmulo de diversas vidas que cruzaram com a dele. O incrível era que conseguia se lembrar com detalhes – e fazia questão de contar a quem quisesse – de cada causo de cada item da casa, independente da sua (ir)relevância real. Os cartazes, os bibelôs, os tapetes, mesmo as garrafas vazias e os livros, tudo tinha um causo, um nome e, normalmente, uma mulher envolvida. Ou várias.
Uma das poucas coisas que ele dizia que não tinha causo ou história era o tal do violoncelo – que ele, pernóstico, insistia em chamar de tchelu – guardado desafinado e empoeirado atrás dos sofás da sala.
O cello era uma presença muda na sala caótica. Se perguntavam se ele tocava, ele não tocava. Se perguntavam se ele gostava de música clássica, ele não desgostava e não amava. Se perguntavam se era de decoração o bicho, ele achava-o horroroso. Se perguntavam se valia dinheiro, ele não sabia nem quanto custava para tirar o treco dali. Ainda assim, meio por inércia e meio por charme, o cello permanecia incólume, impávido e assunto inexorável para as visitas.
(Aí tem a virada na história, né? a gente – essa gente que se predispõe a escrever – tem que colocar virada na história para ela ficar interessante e dar liga para quem lê. E o que seria da gente que tem história para contar se quem lê não dá bola nem pelota para o que a gente diz?)
Certa feita, certa moça resolve entrar na vida do moço (que de moço tinha bem pouco) e você já pode adivinhar o que ocorre, né? ele cai de quatro pela moça, fica embasbacado e, como em toda história de amor verossímil, rola um lance ela não liga mais para ele e ele fica na mão. Literalmente.
Acontece que a moça curtiu o cara a ponto de voltar mais uma, duas vezes. Sempre de forma irregular. Não muito diferente do que os moços com muitas opções fazem. Afinal essa coisa de romance é questão de oportunidade de convencimento, né? Um convence o outro que é o the one e ambos seguem juntos até verem que não é bem assim, que não existe essa parada de the only and sonely one mas que é legal ficar juntos e tal e bora pra frente que a vida não pede licença para acabar e vem chegando e arrastando a gente pela corrente sem fim de acontecimentos. Ou cai a ficha e ambos dão o pinote antes que virem inimigos ou se odeiam por anos a fio e todas as variações que todas as novelas já exploraram de forma exaustiva e cacete por esses anos todos.
Mas teve tal dia que a moça resolve passar a noite com ele. Estava triste, carente e ele nem era tão feio e nem tão chato e nem tão ruim de cama que não rolasse um cafuné pelado dessa vez. De manhã, ela – já linda, linda – sacudiu os cabelos que agora usava curtinhos e platinados para espaços que não existiam mais. Era um carinho eventual auto-indulgente que virara um tique dos tempos que as melenas eram mais longas. Ele já sabia porque ela havia confessado que queria deixar crescer um pouco antes do fim do ano e ele mentiu que também pensava em deixar crescer mas o que queria dizer é deixa eu vê-lo crescer a cada dia, todos os dias até que ambos ficassem grisalhos e velhos e os netos iriam zombar dos cabelões do avós e eles iriam rir e morrer felizes.
Ela foi nua até à sala e fitou o cello. Disse para ele que queria dançar – nada a ver com o instrumento, só que ela achava interessante aquele bicho marrom no meio da sala bagunçada – e disse que queria riscar o chão. Falou isso como quem conhecia bem o jargão da noite como quem já rodara por todas as academias e rodas de samba bolero pagode choro valsa funk rock e tango da cidade. Tá faltando alguém com brio de encarar a loira aqui, brincou com ele, e tá faltando um lugar legal também. Saí da festa anteontem arregaçada de vontade e necas de pitibiriba.
Ela se vestiu logo depois e deu beijo de adeus até não sei quando te ligo não me liga, tá?
Quando voltou da porta fechada, ele olhou de novo pro bicho vermelho. Nunca vou aprender a tocar essa merda mesmo, sentenciou.
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