pensamentos esparsos de uma mente desconexa
7 jan 2008
O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.
É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.
Ou algo assim.
É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.
Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.
Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.
Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.
Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.
O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.
Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.
Porém, a questão aí é a da consciência.
Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.
Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.
Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.
20 comentários for "Sobre a ditadura da paisagem"
hahaha, é por isso que eu moro em petrópolis!!!!!!!!!!!!!!
gostei mucho, caríssimo.
beijoca,
Diferente de vc eu não me acostumei e sofro quando o final de semana se aproxima e o sol está firme e forte, indicando um namorado ávido por uma praia e sedento da minha gorda companhia!!! ¬¬
Adorei o texto. Especialmente quem vive entre Rio e SP entende isso muito melhor, tanto em termos de diferença e julgamento de paisagens, como nos hábitos das pessoas.
Eu, como pessoa de grande senso estético, consigo compreender essa obcessão das pessoas. No entanto, sou mais preguiçosa do que isso e não faço nada de exercícios, embora devesse, por questão de saúde.
Mas é um fato que todo mundo dá seu jeito para fazer as pazes com o espelho, ainda que esse seja as pessoas que te cercam.
oi!! Eu fui e sou leitora super assídua de diversos blogs interessantes… Criei o Leve & Solto há pouco tempo…
Não conhecia seu blog, adorei!
Quando tiver um tempinho, passe lá no leve&solto e dê uma lida no post do dia 19/12 “em busca da perfeição”… Lendo seu post de hoje, lembrei do que escreví…
Quanto ao Par Perfeito… Bem, acho que não conhecí vc por lá, mas ainda está em tempo! rsrsrs
Bjs
Mara
Pára de mimimi e vamos pro treino de jiu jitsu logo de uma vez.
adorei a parte ‘as pessoas que te cercam’. definitivamente, é o meu método. prefiro catar companhias molengas e preguiçosas do que fazer ginástica. huahuahua.
eu acho bem bom ser gostosa. nao bato ponto na academia, mas caminho e tomo um solzinho. não me atraio necessariamente por pessoas belas. e não acho que isso seja uma ditadura carioca. Em sao paulo, rola uma muito mais pesada: a da montagem, da arrumação. pessoas classe média seguem moda. vão à vila madalena montadas. mesmo quando fingem não estar. usam sapatilhas bonecas, maxi bolsas e sabem que cor é a correta para parecer “q nao estao seguindo moda”…
aqui no Rio, é verdade, o código é outro. é sandália havaiana. e parecer arrumado é O mico. E usar maquiagem? credo. coisa de paulista (ou de suburbano. ou de morador da barra)
;)
Petrópolis tem suas peculiaridades também… :D
Bom, quando feito com amor, tudo é válido!
A ponte entre as cidades me tornou bem mais crítico a respeito de outras características do Rio, mas renasceu um amor por suas paisagens que - por sorte - tem sido plenamente retribuído.
Bora!
Opa! Passei por lá e já adicionei-o nos meus feeds!
Não sofri aqui o mesmo que no Rio, dado que já passei a minha adolescência aí e - graças a Cronos - não tenho outra para gastar aqui.
Os códigos de beleza são - fato - muito diferentes entre as duas cidades e não acho que uma justifica a outra.
O fato é que o Rio é uma cidade condenada a ser bela. A sua topologia, a sua cultura, a sua boa-vivência estimula o belo em todos os aspectos.
Pra bem e para o mal.
Não, eu como paisagista e exímia apreciadora das curvas e cenários cariocas não posso concordar com o argumento aqui apresentado!
Ainda mais porque as paredes das academias da cidade são cobertas de espelhos e não de plotagens de belas vistas naturais.
Afinal narciso acha feio o que não é espelho…
E o rio é muito maior que as orlas apinhadas de beldades.
E viva as barriguinhas protuberantes e saudáveis!!!
O Zander, como carioca e morador da cidade há quase 49 anos, vou discordar veementemente de você. Acho que essa coisa de morar em são paulo e vir ao rio em rápidos passeios não está fazendo bem aos seus miolos. :-)
Essa juventude de muito músculo e pouco cérebro moldada de academia existe em todos os grandes centros. Onde há praia, você os encontra com mais freqüência, ou pelo menos, visíveis de corpo inteiro. Mesmo assim, essa turminha tem seus guetos em alguns quarteirões de Ipanema e bares “descolados”. O Rio é uma das únicas cidades do mundo em que a maioria das pessoas não está nem aí se você é gordo ou magro, careca ou cabeludo. Onde você olha para o lado e já começa um papo, como hoje, eu esperando a Ane numa estação de metrô, conheci o Adilson, um senhor simpático, que toca cuíca na bateria da mangueira. Ele me deu dicas sobre a escola, sobre o problema com o Ivo Meireles, sobre a segurança na quadra. Dê uma caminhada pela orla de Copacabana, sem dúvida nenhuma, a praia urbana mais bela do mundo e você verá homens e mulheres cheios de gordura balançando para todos os lados, de sunga e sem camisa ou de biquíni e tênis. Nas areias não é diferente.
Mas o que são os espelhos, além de uma forma da cidade olhar para si própria?
Poesias à parte, vejo que essa geração - a tua - que me sucede é menos afeita à skin deep beauty que às outras, que prefiro.
beijos. saudades.
Bom, aproveito o passeio que começastes em Copa e estiquemos para Ipanema, Leblon, São Conrado e Barra.
A regra vale?
Ou então vamos dar um pulo no Baixo Gávea numa quinta à noite, com os Puqueanos - ou filhos da PUC - flanando belos e belas, lindos e lindas.
Ou sou eu que estou ranzinza porque as meninas não olham mais para mim! :D
hahah. pode ser. :)
To até indo pro Rio pra semana… Muito bom o texto!
Vá! mas volte!
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