O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.

É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.

Ou algo assim.

É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.

Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.

Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.

Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.

Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.

O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.

Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.

Porém, a questão aí é a da consciência.

Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.

Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.

Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.