May 7, 2005 6

uísque e chope

By in textos

Eram apenas os dois no bar. Ela queria acabar com tudo e ele sabia disso desde o momento que ela lhe ligara dizendo que precisava ter uma “conversa definitiva” sobre o relacionamento. Disse que topava, mas se arrependeu no seguinte. Se enrolasse mais uma , pensou, ela esqueceria tudo e voltaria ao que era antes. Estava se enganando, meio consciente, meio tentando se agarrar à última nesga de esperança. Afinal de contas, não esperara dezessete anos para ter a primeira noite de à toa. Lutaria até a última gota de saliva para tentar manter o sonho em carne.

Chegou uma antes do combinado e começou a beber esperando e repassando tudo que iria dizer. A cada dose de uísque, a estratégia mudava. Na sexta dose, decidira rasgar as veias e dizer: “sem tu, sou nada.” Muito dramático e sabia que, apesar da dor da , sobreviveria. Afinal de contas, era o tempo ao seu lado. Ela não caíra em si e descobrira que ele era o cara certo para ela. O único que a amara incondicionalmente. Pois é. Ele jogaria tudo isso na cara dela e não haveria argumentação contra. É TPM, ela realmente te ama, cara. Você foi perfeito, apesar das duas broxadas e de nunca se lembrar do nome da irmã dela. Aliás, que irmã…

Ela entra. Todos no bar param e a olham. Ela é linda. Não tem jeito mesmo. Você foi feito para ela e como ela não pode se tocar disso? Puta que pariu! Ela tá linda.

“Oi.” “Oi.” “Senta aí.” “Brigada.” “Você quer um chope?” “Pára. Você sabe o que eu quero conversar contigo.” “Não sei. Só imagino.” “Cara, não dá mais para continuar assim. Você sabe que entre mim e você não tem mais nada. É um erro termos tentado algo depois de todo esse tempo.” “Mas você não pode negar que foi bom enquanto durou.” “Não foi.” “Mas não era o que parecia. Você tremia a meu toque, virava os olhos quando eu te deitava e te amava.” “Sou sinestésica, cara. Você sabe disso. Gozo com o sacolejar do ônibus.” “Mas você sabe que eu sempre fui apaixonado por ti.” “Eu sei. E é por isso que temos de parar por aí. Eu gosto de ti. Mas nunca te procurei. Nunca te procurei por dezessete anos. Não foi à toa, né.” “Eu sei, mas.” “Mas nada. Não dá. Tentamos, e tal. Você tentou, é verdade. Perseverou por esse tempo todo, eu sei, é um herói. Mas não dá mais. Não sou a mulher para ti.”

Ele se lembrou dos tempos do colégio.

“Mas você não entende. Eu te.” “Não fala. Vai ser pior pros dois.” “Mas eu.” “Quando um não quer, dois não se beijam.” “Mas eu te beijei. E muito. E você gostou. E quis mais. E pediu que eu fosse teu homem. E eu fui. Eu era antes de você me pedir que fosse. Antes mesmo de nascer. Mas você quis escutar os outros. Não me deu nem a chance do não. Eu te dizia que ‘nunca acaba’ mas você nunca acreditou em mim. E aqui estou eu, rasgando minhas veias na tua frente. Abrindo o core e derramando uma mágoa e um desejo que nem são mais meus.” “Eu sei. Mas é assim que as coisas são. Te disse uma vez que, se mandasse no meu coração, me apaixonaria por ti. Mas não rola. Não te amo. Não te quero. Já até te esqueci.”

Nos ela vinha de camisa branca e calças jeans. Batom vermelho. Cabelos negros (com um fio ou dois brancos já na adolescência). Pele alvíssima, apesar da praia.

“Me deixa ser teu amante, teu capacho, teu brinquedo. Quero apenas estar na tua sombra, te acompanhar à baia.” “Não, cara. Você merece algo melhor.” “Não quero algo melhor. Quero você.”

Um chope. Outro uísque. O primeiro esquenta no copo enquanto o outro some como se evaporasse salgado.

“Não chora, vai.” “Como não chorar?” “Eu sabia que isso tudo era um erro.” “Eu vou ficar legal, tá?” “Vai mesmo?” “Claro que não, porra! Eu te amo, caralho! Você já amou alguém nessa tua vida? Amou mesmo? De verdade? Porra, você não sabe o que é amar à vera. Amar incondiconalmente, saca? Tá certo, eu sei que sou um platônico. Que amo mais o amor e a paixão que as pessoas em si, mas é em você que eu depositei as minhas fichas. Muita gente tem medo do jogo da vida, mas eu aposto em ti tudo que eu nem posso arcar e você vem do nada e diz que é isso: beijo e tchau?” “Você sabe que não é do nada. Tenho bons motivos para isso.” “Ah é? Que motivos?” “Você sabe melhor que eu.” “Sei nada.” “Pára e pensa.” “Nada a ver isso. Babaquice tua.” “Babaquice? Você cantou minha irmã, seu filho da puta.” “Eu tava bêbado.” “E daí?” “Ela me lembra de você quando bem nova, quando te conheci.” “Pois é. Você é apaixonado por aquela menina secundarista, tímida, reprimida. Eu cresci, porra! Já sou uma mulher!” “Uma mulher linda.” “E você canta a minha irmã!!” “Eu disse que estava bêbado.” “Explica, mas não justifica.” “Eu sei. Me perdoa.” “Posso até perdoar sim. Mas não rola mais. Acabou o . Acabou.”

Numa festa ele disse a ela: “Eu te amo.” e ela riu. Estava bêbado, como sempre, mas nunca tinha sido tão sincero na vida. Meses depois ela disse a ele: “Isso não acaba?” ele disse: “Nunca acaba, menina. Nunca acaba.”

Ela se levanta, tira da carteira cinco reais e deixa para pagar a conta. Ele já é só lágrimas. Ela dá as costas, contendo o choro e o desejo de beijá-lo. Pena é um sentimento horroroso, mas ela não consegue evitar. Afinal de contas, em um outro mundo eles teriam se conhecido no colégio, ele teria pedido permissão para namorar e os pais dela teriam consentido. Talvez tivessem casado aos vinte e poucos e teriam três . Morreriam aos noventa. Ele primeiro, ela dois meses depois.

“Adeus.”

Ela saiu. Ele ficou duas horas olhando o copo vazio com o gelo derretendo.

EU TE AMO, PORRA!” Gritou entre os do bar em Santa Teresa.

Nunca acaba.

Mesmo.


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6 Responses to “uísque e chope”

  1. Maravilhoso…

    Lindo mesmo. Parabéns!

  2. gabi says:

    tudo de bom, emocionante, romântico, louco, real e sensível…

  3. lais says:

    adorei o texto!!! muito bom mesmo!!!

  4. Ana Mysteron says:

    Não posso dizer que isso é lindo; quem já sentiu um drama desses na pele sabe que é tudo menos isso. Posso dizer que é verdadeiro, de uma maneira tocante. Mas, acima de tudo, é intenso, como a vida deve ser. Penso eu. Não sei se daqui a alguns anos ainda vou pensar assim… espero que sim. Amargura nào é meu forte…
    Parabéns pelo texto que, além de tudo isso, está muito bem escrito. :)

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