August 1, 2007 3

Um café, um bolo, um beijo

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Nunca entendi o sentido dos reencontros.

Não que sejam ruins, entenda-me, mas essa vontade de tentar reviver um sentimento é estranha para mim. E não que eu não sinta isso vez por outra, muito pelo contrário. Essa é quase uma constante na minha vida.

Sou um saudosista declarado e assumido, ora bolas!

Mas é como uma febre que não abandona um corpo doente. Ou como um cisco que teima em lacrimejar o olho descuidado. É assim que me pego querendo reanimar uma história que já estava morta. E, veja bem, morta não por minha opção ou de qualquer outra das partes envolvidas. Mas porque tinha de ser desse jeito. Nem todos os casos dão certo ou todos os relacionamentos perduram.

Aliás, relacionamentos estão sempre fadados a acabar. Tolo é quem teima em manter vivo o defunto declarado e anunciado como morto.

Por vezes é bom rever as pessoas que, em algum momento de suas vidas, se distanciaram e traçaram os seus próprios caminhos. É uma questão de tentar reaver de onde viemos, de onde pertencemos e traçar paralelos equivocados sobre nossas próprias vidas.

Às vezes o reencontro tem um sabor de café, bolo e papo bom e faz começar uma história nova com os mesmos personagens em outras histórias, com papéis diferentes. Um casal de ex-amantes torna-se e sinceramente preocupados um com o outro, numa forma diferente de . Nesse caso o reencontro é apenas pretexto para uma história nova. É a vida se manifestando no momento do culto ao passado.

Porque a vida é isso: é a celebração do porvir, do devir universal. A vida é potência que se manifesta sem traçado aparente.

Mas o humano é o oposto disso. Nós somos reflexo do passado, retrovisores de nossas próprias histórias e gostamos de remoer, ruminar e macerar o que aconteceu há anos passados. Poucos de nós conseguem olhar para o horizonte e enxergar que ali é o seu lugar. Temos a tendência, novamente, equivocada de achar que o passado era melhor, que aos quinze, aos vinte ou aos vinte e cinco é que éramos felizes. Pobres de nós! Nos negamos a felicidade aos trinta, trinta e cinco e aos quarenta.

Mas tergiverso. O caso é que os reencontros são esquisitos. Ex-amantes não sabem onde colocar as mãos ou o , ex-colegas não sabem que confidências são mais pertinentes ou que intimidades o novo código à mesa pede que sejam deixadas para depois da sobremesa. Pessoas que reconhecíamos como os braços e olhos e ouvidos estendidos de nós mesmos agora titubeiam em contar um projeto novo ou em anunciar o filho que está a chegar.

O que entristece nesses reencontros é que as pessoas mudam. Elas envelhecem no mesmo passo que você. Os cabelos brancos podem ser escondidos, mas as rugas da alma são indeléveis. Não há tintura para esconder a carga de passado que cada um carrega. Aquela imagem congelada do passado há muito já não corresponde à realidade e só tu é que não se apercebeu disso.

E eu me pego pedindo para que alguém tenha de mim.


Tags: , , , , , , , , , ,

Tags: , , , , , , , , , ,

3 Responses to “Um café, um bolo, um beijo”

  1. rachel says:

    ai zander! adorei!!! é isso mesmo. bom mesmo é quando a gente consegue realmente reciclar as coisas. revisitar achando que é a mesma coisa não dá, vem com cheiro de mofo, de coisa guardada. haja rinite! (rs)
    mas repaginar as histórias e transformá-las no que pode vir a ser ao invés de se prender ao que se foi, é, definitivamente uma forma excelente de lidar com isso.
    eu tive a sorte de ter 2 namorados que não deram certo como namorados e hoje são grandes amigos, do tipo que me fazem bem e dos quais não desejo perder contato jamais. eles me lembram não só quem eu fui, mas também de quem eu posso vir a ser. sem quaisquer implícitas intenções.
    infelizmente, na vida, a gente também encontra uns bagaços de laranja. mas há o que se possa reciclar, amém!, mas há o lixo que ao lixo pertence e que de lá não deve sair.
    beijo querido!

  2. Dora says:

    Acho que sou muito nova pra já ter me reencontrado com alguém do passado. Não consigo ser tão saudosista quanto gostaria. Acho que quando me reencontrar vai ser um tanto quanto bizarro…

    Gostei do texto. Muito sensível.

  3. Morena says:

    o eterno dilema…
    mas acredito na força das coisas em si, que fogem dos contratos e compromissos, e existem por que se vestem de carinho sincero

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.

友情链接:

南京装修网

南京装修日记

南京装修风水

南京装修验收

南京装修问题

南京装修家具

友情链接:

AION RMT-アイオン RMT

メイプルストーリー RMT

dragonnest rmt

ARGO RMT

エイカ AIKA RMT

ドラゴンネスト-DragonNest-RMT

AILA rmt アイラ rmt

ネクソンポイント RMT

Dragonica ドラゴニカ -RMT

アラド戦記 RMT

Atlantica-アトランティカ

CabalOnline RMT

Aion-アイオン RMT

日本最大手のRMT斡旋サイト