September 18, 2005 1

Uma crônica de Marte e Luna

By in textos

A menina estava disponível e ele também. Já se conheciam de outros carnavais e já fizeram aquele caminho outras vezes. A bem da verdade, eram outros tempos e outras intenções. Hoje, eles eram adultos: experimentados, maduros, resolvidos e sabiam bem o que queriam um do outro.

Ou assim pensavam.

Passearam pelo Arpoador de mãos dadas. Emocionaram-se com a que nascia em Copacabana e com o Sol que se punha em Ipanema. Pensaram ouvir ao longe os aplausos do Posto 9 mas, dada a distância, os aplausos estavam em suas imaginações. Como se elogiassem a si mesmos subconscientemente.

Conversaram bastante, a ponto de acabar a saliva no meio de uma conversa. O assunto era recorrente. Se comentavam da Lua, do Sol ou do cheiro de mijo das pedras, era apenas para dar uma pausa para tomar fôlego ou para embasar o tema principal. A paisagem se tornara uma metáfora para relações mal-acabadas. Mal-acabadas para eles, diga-se de passagem, porque o “outro” estava muito bem da vida. Sorrindo como nunca antes ao lado deles. Se divertindo como idem. Transando como nunca antes transaram em suas patéticas vidas.

Pois é.

Durante o cair da tarde ele só falava da ex-noiva e ela, do ex-namorado. Os ex-outros eram o tema principal e o único assunto que os unia naquela tarde. Talvez essa fosse a forma que encontraram para dizer que estavam sendo o mais verdadeiro e sincero possível. Não haveria enganação, sentimentos dúbios ou ilusões que não fossem consentidas por ambos, conscientemente. Sabiam o porque de estarem ali e essa conversa só reafirmava isso.

Passearam até a noite se firmar e sentirem que a já se manifestava por dentro das suas calças. Era tanta que já davam vexame público e evitavam os olhares invejosos de quem caminhava castamente pelas pedras.

Já em , nus, cometeram uma dúzia de erros fatais.

Amaram com sofregudão, mal dando tempo para os preparativos. Preliminares? Ora, estavam nas preliminares há meses. E ficaram ali por horas praticando o antigo esporte bretão.

Mentira!

Mal durou dez minutos!

Ela, por cima dele, controlava a situação como sempre sonhara fazer com o seu amado e ele cometeu o erro de chamá-la pelo o nome errado por três vezes.
“Me desculpe, eu não queria…” “Não… tudo bem… eu te entendo!” “Como assim entende?” “Deita aí e imagine que sou ela!” “Não! Pera lá!” “Faça isso! Anda!”

No décimo-primeiro já estavam satisfeitos, e se contemplavam. Ele, procurando algum tipo de carinho. Qualquer carinho. E não encontrou. Ela, tentando inventar um que não teria como existir naquelas condições.

Se vestiram, tomaram a rua, pegaram um táxi. Ele foi deixá-la em casa. Na volta, não se conteve e pediu para o motorista passar por uma rua que não passava fazia tempo.
“O caminho por aqui é mais longo.” “Tudo bem. Pode até pegar a praia depois. Não tô com pressa!”

A rua estava vazia e o motorista não se demorou o tempo que ele esperava. Procurou um tipo de emoção dentro de si e não achou. Não vieram as lágrimas nem a auto-comiseração. Achou que estava pronto.

Saltou em frente ao Othon Palace. Foi até a praia. Tirou os sapatos e pisou na areia com , como se quisesse sentir cada grão roçando os pés. Olhou em volta para ver se havia perigo e foi calmamente andando até a água.

estava ali, lhe esperando. “Então. Como foi?” “Não sei. Tudo é muito estranho. Há um vazio agora. Não tenho mais raiva, ou paixão.” “Duvido. Você ama ser rejeitado.” “Mentira!” “Ama sim. Vai negar que a ama agora mil vezes mais que antes?” “Não nego.” “Então?” “Talvez você tenha razão. Talvez eu seja um maldito masoquista.” “Não fique assim.” “Não?” “Não é produtivo isso.” “Você tem razão novamente.” Sorriu para ele e o chamou para si. “Não posso ir agora. Você deveria ficar aqui também.” “Não sei se devo…” ela titubeou “…não sei se conseguiria viver uma vida de carne e osso.” “Você mesmo quem me recomendou isso!” “Mas tenho . Já me magoei muito antes.” “Olha só a rota falando do esfarrapado!” “Eu sei, eu sei. Mas você é Marte. Você está apto para a guerra, para os ferimentos da batalha. Se eu me ferir, me desfaço em água, vou com as marés.” “Querida, você é a maré! Vem. Desce do teu pedestal e seja feliz.”

Ela olhou com o olho mais doce e depois com o olho mais vil. “Você sabe que sou terrível e divina. Sou mãe e bruxa. Sou o teu prazer e teu sacrifício e…” “Blá, blá, blá… Luna e Hecate, yadda yadda yadda. E eu sou Marte e Ares, sou Medo e Terrror, sou Libido e Potência… Porra! Sou um ser humano, caralho!” “Eu sei!” “E é em cada queda que aprendemos a andar, a sermos seres melhores. Você fica aí, num altar, cortejada pelos pobres, poetas e melancólicos e se esquece que, quando envelhecer, vai ser deixada de lado. Tua corte procurará outra Lua. E eu, deverei aposentar minhas armas, vou procurar um canto para criar meus e plantar meus discos. Cansei da Guerra, do Bom Combate. Quero sossego.” “Então está combinado.”

Ela desceu do pedestal e, antes de ir para São Paulo, disse no ouvido dele: “Tudo muda.” E ele: “Nada mudará.”

E era belo e verdadeiro, assim no alto, como embaixo.


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One Response to “Uma crônica de Marte e Luna”

  1. Carol says:

    Zandeco!
    muito bom..
    q sensiblidade vc anda, hein?
    palavras sinceras (ou não) e um pouco obscuras..
    idas e vindas, encontros e desencontros.. sei como é
    como anda essa casa?
    espero q esteja bem..
    bjos

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