A menina estava disponível e ele também. Já se conheciam de outros carnavais e já fizeram aquele caminho outras vezes. A bem da verdade, eram outros tempos e outras intenções. Hoje, eles eram adultos: experimentados, maduros, resolvidos e sabiam bem o que queriam um do outro.
Ou assim pensavam.
Passearam pelo Arpoador de mãos dadas. Emocionaram-se com a Lua que nascia em Copacabana e com o Sol que se punha em Ipanema. Pensaram ouvir ao longe os aplausos do Posto 9 mas, dada a distância, os aplausos estavam em suas imaginações. Como se elogiassem a si mesmos subconscientemente.
Conversaram bastante, a ponto de acabar a saliva no meio de uma conversa. O assunto era recorrente. Se comentavam da Lua, do Sol ou do cheiro de mijo das pedras, era apenas para dar uma pausa para tomar fôlego ou para embasar o tema principal. A paisagem se tornara uma metáfora para relações mal-acabadas. Mal-acabadas para eles, diga-se de passagem, porque o “outro” estava muito bem da vida. Sorrindo como nunca antes ao lado deles. Se divertindo como idem. Transando como nunca antes transaram em suas patéticas vidas.
Pois é.
Durante o cair da tarde ele só falava da ex-noiva e ela, do ex-namorado. Os ex-outros eram o tema principal e o único assunto que os unia naquela tarde. Talvez essa fosse a forma que encontraram para dizer que estavam sendo o mais verdadeiro e sincero possível. Não haveria enganação, sentimentos dúbios ou ilusões que não fossem consentidas por ambos, conscientemente. Sabiam o porque de estarem ali e essa conversa só reafirmava isso.
Passearam até a noite se firmar e sentirem que a saudade já se manifestava por dentro das suas calças. Era tanta saudade que já davam vexame público e evitavam os olhares invejosos de quem caminhava castamente pelas pedras.
Já em casa, nus, cometeram uma dúzia de erros fatais.
Amaram com sofregudão, mal dando tempo para os preparativos. Preliminares? Ora, estavam nas preliminares há meses. E ficaram ali por horas praticando o antigo esporte bretão.
Mentira!
Mal durou dez minutos!
Ela, por cima dele, controlava a situação como sempre sonhara fazer com o seu amado e ele cometeu o erro de chamá-la pelo o nome errado por três vezes.
“Me desculpe, eu não queria…” “Não… tudo bem… eu te entendo!” “Como assim entende?” “Deita aí e imagine que sou ela!” “Não! Pera lá!” “Faça isso! Anda!”
No décimo-primeiro minuto já estavam satisfeitos, e se contemplavam. Ele, procurando algum tipo de carinho. Qualquer carinho. E não encontrou. Ela, tentando inventar um amor que não teria como existir naquelas condições.
Se vestiram, tomaram a rua, pegaram um táxi. Ele foi deixá-la em casa. Na volta, não se conteve e pediu para o motorista passar por uma rua que não passava fazia tempo.
“O caminho por aqui é mais longo.” “Tudo bem. Pode até pegar a praia depois. Não tô com pressa!”
A rua estava vazia e o motorista não se demorou o tempo que ele esperava. Procurou um tipo de emoção dentro de si e não achou. Não vieram as lágrimas nem a auto-comiseração. Achou que estava pronto.
Saltou em frente ao Othon Palace. Foi até a praia. Tirou os sapatos e pisou na areia com calma, como se quisesse sentir cada grão roçando os pés. Olhou em volta para ver se havia perigo e foi calmamente andando até a água.
A Lua estava ali, lhe esperando. “Então. Como foi?” “Não sei. Tudo é muito estranho. Há um vazio agora. Não tenho mais raiva, ou paixão.” “Duvido. Você ama ser rejeitado.” “Mentira!” “Ama sim. Vai negar que a ama agora mil vezes mais que antes?” “Não nego.” “Então?” “Talvez você tenha razão. Talvez eu seja um maldito masoquista.” “Não fique assim.” “Não?” “Não é produtivo isso.” “Você tem razão novamente.” Sorriu para ele e o chamou para si. “Não posso ir agora. Você deveria ficar aqui também.” “Não sei se devo…” ela titubeou “…não sei se conseguiria viver uma vida de carne e osso.” “Você mesmo quem me recomendou isso!” “Mas tenho medo. Já me magoei muito antes.” “Olha só a rota falando do esfarrapado!” “Eu sei, eu sei. Mas você é Marte. Você está apto para a guerra, para os ferimentos da batalha. Se eu me ferir, me desfaço em água, vou com as marés.” “Querida, você é a maré! Vem. Desce do teu pedestal e seja feliz.”
Ela olhou com o olho mais doce e depois com o olho mais vil. “Você sabe que sou terrível e divina. Sou mãe e bruxa. Sou o teu prazer e teu sacrifício e…” “Blá, blá, blá… Luna e Hecate, yadda yadda yadda. E eu sou Marte e Ares, sou Medo e Terrror, sou Libido e Potência… Porra! Sou um ser humano, caralho!” “Eu sei!” “E é em cada queda que aprendemos a andar, a sermos seres melhores. Você fica aí, num altar, cortejada pelos pobres, poetas e melancólicos e se esquece que, quando envelhecer, vai ser deixada de lado. Tua corte procurará outra Lua. E eu, deverei aposentar minhas armas, vou procurar um canto para criar meus livros e plantar meus discos. Cansei da Guerra, do Bom Combate. Quero sossego.” “Então está combinado.”
Ela desceu do pedestal e, antes de ir para São Paulo, disse no ouvido dele: “Tudo muda.” E ele: “Nada mudará.”
E era belo e verdadeiro, assim no alto, como embaixo.
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Zandeco!
muito bom..
q sensiblidade vc anda, hein?
palavras sinceras (ou não) e um pouco obscuras..
idas e vindas, encontros e desencontros.. sei como é
como anda essa casa?
espero q esteja bem..
bjos